Essa noite por acaso não está fria. É agradável estar na rua. É simpático ver as luzes a iluminarem a cidade. Provavelmente por isso há gente por todo o lado. Não as vejo a todas. Mas ouço cada indivíduo. Conversas risadas. Discussões gritadas. Promessas entusiasmadas. Fazem-se presentes. Tornam-me ausente. De toda essa vida partilhada a portas escancaradas. Das histórias contadas em entrelinhas expostas. De boleias oferecidas em caminhos cruzados. De banalidades comuns a extremos. Dos segredos que perderam efeito. Dessa transparente necessidade do outro. Dessa imensa vontade de ser o outro. O que acena. Concorda. Ouve. Observa. Julga. Sem se colocar a jogo. Sem intenções de que lhe retribuam o favor. Sem entregar o martelo da sua vida. Não quero ser a mulher cuja postura está a ser avaliada a entrada da estação de metro. Não tenho o desejo de me sentir o produto de uma qualquer classificação. Quero a liberdade de apenas me permitir existir. Sem preocupações. Nem pretensões. E nessa noite de agradável clima sou apenas isso. Sou só liberdade.
Depois de algumas leituras, escritas, questionamentos e diálogos cheguei à conclusão de que a literatura angolana vai além de literatura feita por angolanos ou sobre Angola. Num diálogo que tive com um conhecido, percebi que para definir literatura angolana é preciso encontrar um ponto que nos une: A expressão ‘’O Angolano tem uma forma única de ser, pensar, agir e expressar-se seja na linguagem ou emoções.’’ Ele disse. Nesta mesma conversa, falamos sobre escritores angolanos que escrevem com olhos de expectadores, sobre escritores que marginalizam a vivência urbana e principalmente sobre os que escrevem como falamos, descrevem o que vivemos e criam personagens que nos fazem lembrar da nossa vizinha fofoqueira ou até mesmo do nosso tio que fala em todos os pedidos. Este último grupo, de acordo com a nossa conversa, faz justiça ao que é literatura angolana: A exposição do modo de sentir e viver do angolano. Tal ponto reforçou-se quando li uma entrevista do escritor Ondjaki onde ele rejeita o título de escritor de expressão portuguesa e, em vez disso, defende ser um escritor de expressão angolana. Com isso, posso concluir que literatura angolana é a essência de cada um de nós, é o âmago da nação, o dinamismo, a alegria que pode levar ao contentamento, as malabarices, sonhos e medos que nos unem como um só. O meu amigo, ainda disse ‘’Fazer literatura angolana é conseguir mostrar com naturalidade aquilo que os angolanos são.’’ Em outras palavras, a nossa literatura é o que nos define. Por isso, penso que na posição de jovens fazedores e consumidores de literatura, ainda temos um longo caminho por percorrer não só ao definir mas também ao criar literatura.
Enfim... fiz toda esta introdução para ilustrar como o convite da Yokutxa apareceu em hora certa, surgiu num momento oportuno e deu-me a oportunidade de aprofundar as minhas reflecções sobre o tema. Sem alongar-me mais do que necessário, cá estão as minhas (um pouco mais do que) 3 recomendações sobre literatura angolana.
Vidas de Areia de Divaldo Martins
O quintal onde estava a nossa casa era de areia, o próprio beco que era a nossa entrada e saída para o mundo era de areia... Tudo era de areia. O bairro, os sonhos, as vidas, tudo era de areia!
Imagem fornecida por Rosa Soares
Onde encontrar: Livrarias em Luanda, Kero.
Nova Angola é um canal que pretende mostrar à Angola e ao mundo um pouco sobre a nossa cultura e a sua evolução. O que mais gosto no canal é a série de vídeos ‘’Leituras’’, onde se explora um escritor angolano e uma das suas obras em termos do processo de criação e as mil histórias por detrás do que lemos.
Imagem fornecida por Rosa Soares
Deixo aqui 3 vídeos da série:
O Cronista é uma página criada e dirigida por um jovem angolano, onde regularmente são publicados trechos de literatura e questões interessantes para debate.
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Nota da Editora Baixinha: agradeço imensamente a Rosita (sim, continua a saga de nomes de carinho) pelo texto e as recomendações, tal como pela paciência por eu ter atraso essa publicação uma semana por motivos vários. E vocês podem encontrá-la nos endereços abaixo.
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Nota da Editora Baixinha: agradeço imensamente a Rosita (sim, continua a saga de nomes de carinho) pelo texto e as recomendações, tal como pela paciência por eu ter atraso essa publicação uma semana por motivos vários. E vocês podem encontrá-la nos endereços abaixo.








